Ainda sobre a crise alimentar
José Manuel Pureza escreveu no Arrastão um post interessante sobre a crise alimentar. Comenta também o mesmo tema no Público. Concentrando-me no que escreve no Arrastão, o Professor de Economia da Universidade de Coimbra levanta algumas questões relevantes e procura dar-nos algumas lições de como ler os acontecimentos. Apesar de perceber os seus argumentos, sinto-me na obrigação de questionar algumas das posições e realçar que algumas questões não deveriam ser interpretadas de uma forma tão determinística.
José Manuel Pureza começa por apresentar um caso específico, o Haiti, deixando a entender pelos exemplos acima que se trata de uma situação genérica entre os países em vias de desenvolvimento. Não sei se por falta de espaço, decidiu excluir da análise outros países como o Vietnam que beneficiaram da abertura dos mercados e da subida dos preços agrícolas. Veja-se por exemplo este estudo (crise-alimentar) que sugere que uma subida de 10% dos preços do arroz diminui a pobreza no Vietnam em 0,7 pontos percentuais (e 1pp nas zonas rurais). Se alguma coisa, as políticas actuais anti–globalização em países como o Vietnam ou a Tailândia (subida das tarifas sobre as exportações), estão a contribuir para a pressão sobre o preço de produtos como o arroz.
Apesar de existirem países que ganham e países que perdem, fiquemos, então, pelo Haiti, uma vez que a sua situação é preocupante. José Manuel Pureza diz-nos que “o Haiti importa 80% do arroz que consome e ao dobro do preço anterior”. Acreditando que esta é a situação actual neste país, convém não esquecer também que a abertura das fronteiras permitiu que os haitianos comprassem arroz a preços mais baratos do que a produção local durante todos estes anos - caso contrário, não teriam abandonado a agricultura local. Além disso, embora seja verdade que o Haiti esteja neste momento a sofrer da subida dos preços internacionais, não há nada que nos diga que isso não aconteceria se se tivesse mantido fechado. Nessa situação, os produtores locais, conhecendo que as alternativas internacionais estão mais caras, provavelmente aproveitariam para também subir os preços.
Ainda neste exemplo do Haiti, teria tido mais cuidado com dois pontos. Em primeiro lugar, José Manuel Pureza utiliza o arroz como ilustração do fenómeno da globalização, quando se há discussão é que o arroz não é suficientemente global – o comércio internacional de arroz representa apenas 5 a 7% do seu consumo. Depois, deixa entender que os subsídios agrícolas em países como os EUA estão a influenciar esta crise, quando na prática, se alguma coisa, estão a manter os preços artificialmente mais baratos.
Em relação às lições que nos deixa, na primeira, diz-nos basicamente que maior escala agrícola e maior inovação correspondem a custos mais caros de produção do que aquela que se consegue em pequenos lotes. Se assim é, porque é que os agricultores optam por essa via? Paul Collier, pelo contrário, afirma:
The remedy to high food prices is to increase food supply, something that is entirely feasible. The most realistic way to raise global supply is to replicate the Brazilian model of large, technologically sophisticated agro-companies supplying for the world market. To give one remarkable example, the time between harvesting one crop and planting the next, in effect the downtime for land, has been reduced an astounding thirty minutes. There are still many areas of the world that have good land which could be used far more productively if it was properly managed by large companies. For example, almost 90% of Mozambique’s land, an enormous area, is idle.
A segunda lição resulta de um argumento muito utilizado hoje em dia para explicar a crise alimentar. Segundo esta visão, os investidores internacionais têm especulado sobre as commodities para compensar a má performance dos mercados financeiros resultante da crise do subprime. Embora mais recentemente isto até possa fazer sentido, este argumento é em si muito especulativo. Se assim fosse verdade, para além da subida dos preços, existiria um aumento dos open interests dos contratos de futuros sobre estes produtos desde que se iniciou a crise imobiliária (Set. 2007). Na realidade, como se pode ver aqui e aqui, o aumento do volume de transacções é anterior à crise do subprime, indicando que não está directamente relacionado.
Por último, esquecendo Sócrates, que pouco tem a ver com este caso, embora concorde com a necessidade de ter cuidado com “choques liberalizadores” como a solução para o problema (talvez não pelas as mesmas razões), tenho alguma dificuldade em perceber como é que termos “hortas nos centros das cidades” nos ajudaria a resolver este sério dilema.
Terá mesmo chegado ao fim?
João Jesus Caetano apresenta no Goodnight Moon cinco razões pelas quais a corrida democrata pode não ter chegado ao fim. Destaque para:
Clinton poderá vir a ter na Virgínia Ocidental e no Kentucky duas das três melhores perfomances eleitorais em todo o processo. Ninguém, no seu juízo completo, abandonaria a corrida dias antes de vitórias dessa dimensão.
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Secção “Livros sobre Portugal”

«Pode esta censura ser rejeitada na Assembleia da República, mas sem dúvida é aprovada no país» [líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares]
Candidatos PSD II
A Visão apresenta esta semana um questionário aos 5 candidatos à Presidência do PSD. Das respostas, pouco há a retirar. Destacaria, no entanto, o seguinte:
- Sobre a redução dos impostos em 2009, Manuela Ferreira Leite respondeu com ar superior “Ninguém, com seriedade, face aos dados hoje disponíveis, pode definir um cenário macroeconómico para 2009”. Se for eleita Presidente do PSD, penso que vai passar o tempo a dar-nos lições de economia. Disse este comentário apesar de sabermos que o mínimo é que o Governo tenha uma noção das linhas gerais do Orçamento que vai apresentar dentro de cinco meses….enfim. Pedro Passos Coelho e Santana Lopes dizem sim e não, respectivamente. Talvez o último tenha a melhor resposta.
- É sintomático que Manuela Ferreira Leite, como única mulher, tenha sido a única dos cinco candidatos que não respondeu à pergunta: “Consigo, como vai o partido captar mulheres para cumprir a Lei da Paridade em 2009?”
- Sobre a redução do peso do Estado, Ferreira Leite responde “o peso do Estado é um conceito global e não sectorial”. Muito interessante, mas se pudesse especificar o que isso quer dizer, agradecíamos. Sobre o mesmo tema, Pedro Passos Coelho e Santana Lopes defendem a redução do Estado em sectores chave da economia. Aliás, neste campo, Passos Coelho na entrevista ao Correio da Manhã da semana passada defendeu a saída do Estado da Caixa Geral de Depósitos e da RTP, isto como forma de se apresentar ao eleitorado como “liberal”. Julgo, no entanto, que para ser conotado como tal, esse não é o discurso. Não tenho nada contra a venda da CGD, mas também não tenho muito a favor. Para o trabalho que daria a um governo esse processo, não sei se é uma guerra que valha a pena comprar. Duvido que seja isso que melhore os nossos níveis de crescimento, o que devería ser o enfoque de qualquer candidato. Que eu saiba, a CGD tem limitado muito pouco – se alguma coisa - a actividade de outros bancos, não sendo assim um entrave ao desenvolvimento do sistema financeiro. Para tomar medidas como terminar com a obrigação de determinados portugueses só receberem a sua pensão/salário através da CGD, parece-me que não é necessário privatizá-la. Na prática, acredito que se Passos Coelho ou outro quer ter um discurso com ideias liberais (muito em voga na blogosfera), então devería posicionar-se por exemplo mais nas reformas do mercado laboral, em que Portugal está na posição 157 em 177 países no Doing Business Report do Banco Mundial. Outras áreas que deveria utilizar no seu discurso liberal, e que me vêm à cabeça neste momento, são por exemplo o aumento dos provedores de serviços ao Estado; o apoio à regulação de sectores centrais da economia; o aumento da competição em serviços tradicionalmente públicos como a saúde, educação, gestão de resíduos; o desenvolvimento de medidas que premeiem a inovação e o empreenderismo privado, etc. Tudo isto e talvez mais, mas duvido que privatizações como a CGD seja o caminho - isso dará muito trabalho e provavelmente muito pouco retorno.
Crise alimentar

Muito tem sido escrito nos últimos dias sobre a crise alimentar. O aumento dos preços agrícolas é um daqueles temas que, como diz Krugman sobre outro assunto, os economistas consideram que têm o “direito” de dizer alguma coisa. Vale a pena ler aqui, aqui, aqui e aqui. É preciso algumas reservas na leitura de algumas opiniões, mas em geral começa a existir algum consenso. As mensagens que considero mais relevantes incluem:
- O problema tem sobretudo origem no aumento da procura mundial.
- O aumento dos preços alimentares não é mau em si. Como em várias outras situações, há vencedores e perdedores. Veja-se por exemplo aqui e aqui. Para países exportadores líquidos (ex: Vietnam), o efeito do aumento dos preços é positivo. Pelo contrário, para importadores em termos líquidos o efeito é negativo (ex: Bolívia).
- Dentro de cada país, também existem efeitos distributivos: as comunidades rurais têm a ganhar com o aumento dos preços, enquanto que as urbanas têm mais a perder. Os pobres urbanos têm normalmente maior poder para protestar nas ruas e para serem ouvidos. Daí os protestos que se têm assistido (exemplo do contrário, são por exemplo as greves dos agricultores na Argentina, depois do governo ter aumentado os impostos sobre as exportações para níveis próximos dos 50%).
- O efeito de aumento da procura é mais permanente do que temporário, mas existe uma componente que sería evitável e que se espera que os países desenvolvidos tenham a capacidade política de reduzir. O consumo de biocombustíveis é entendido como ineficiente no combate ao aquecimento global, tendo se desenvolvido em países como os EUA devido ao poder de lobbies de agricultores junto dos seus governos. Para o futuro, não faz sentido que continuem a desvirtuar a procura de produtos como o milho.
- As soluções para a crise alimentar devem ter duas componentes: uma de curto prazo, antes da oferta começar a compensar o excesso de procura, e outra de longo prazo. No curto prazo, evitar situações de pobreza extrema através de por exemplo a distribuição de food stamps poderá ser uma via. A médio prazo, as visões são mais díspares, mas é fundamental o aumento da oferta, seja via aumentos das escalas de produção em países em vias de desenvolvimento, seja via maior abertura ao comércio internacional. A primeira parece plaúsivel e estar a desenvolver-se aos poucos, com os riscos de conflitos sociais na migração de pessoas do campo para a cidade. A segunda tem de se ter algum cuidado como é feita – por exemplo, a redução dos subsídios agrícolas na Europa, à partida apelativa, deverá ter o efeito imediato de aumentar os preços internacionais dos produtos, aquilo que aparentemente queremos evitar.
Indiana e NC II
11:59pm ET: Apesar de em menos de uma semana, Hillary Clinton ter recuperado de -3 para +2 na diferença face a Obama em Indiana, os resultados da candidata nos dois Estados que hoje tiveram Primárias ficaram longe de “se tirar o chapéu”. Parece que me enganei, peço desculpa. Obama foi quem desta vez renasceu das cinzas e obteve um óptimo resultado em North Carolina e um muito decente em Indiana. Será que apesar dos momentos menos conseguidos na campanha de Obama, os democratas ficaram fartos de tanta luta?
Indiana e NC
6.35pm ET: Hoje julgo que vou “tirar o chapéu” a esta senhora.

Independence Day

Este mês Israel festeja 60 anos de independência. O que para os israelitas é motivo de festa, para os palestinianos é razão para recordar o Nakba, a “catástrofe”, em que mais de 700 mil palestinianos foram expulsos das suas terras (a visão tradicional israelita é que saíram de livre vontade). Passados todos estes anos, o único ponto que une os dois lados da barricada é que existem diferenças claras sobre o que se passou nesse período. Mesmo dentro dos historiadores israelitas existem visões distintas dos acontecimentos, como é exemplo dois artigos publicados recentemente. Efraim Karsh, Professor em Kings College, defendeu esta semana o seguinte:
The recent declassification of millions of documents from the period of the British Mandate [1920-1948] and Israel’s early days, documents untapped by earlier generations of writers and ignored or distorted by the “new historians,” paint a much more definitive picture of the historical record. They reveal that the claim of dispossession is not only completely unfounded but the inverse of the truth. Far from being the hapless objects of a predatory Zionist assault, it was Palestinian Arab leaders who from the early 1920’s onward, and very much against the wishes of their own constituents, launched a relentless campaign to obliterate the Jewish national revival. This campaign culminated in the violent attempt to abort the UN resolution of November 29, 1947, which called for the establishment of two states in Palestine. Had these leaders, and their counterparts in the neighboring Arab states, accepted the UN resolution, there would have been no war and no dislocation in the first place.
Ao mesmo tempo, David Remnick escreveu uma crítica positiva do último livro de Benny Morris, um “novo” historiador, conhecido pelas suas opiniões revisionistas. Remnick afirma que
“1948: A History of the First Arab-Israeli War” is a commanding, superbly documented, and fair-minded study of the events that, in the wake of the Holocaust, gave a sovereign home to one people and dispossessed another.
…e recorda o trabalho anterior de Morris:
In 1988, Morris published “The Birth of the Palestinian Refugee Problem, 1947-1949,” which revolutionized Israeli historiography and, to a great extent, a nation’s understanding of its own birth. Relying less on testimony than on the newly available documents, Morris described how and why sixty per cent of the Palestinians were uprooted and their society destroyed. It was a far more complex picture than many Israelis were prepared to accept. The book features a map that shows three hundred and eighty-nine Arab villages, from upper Galilee to the Negev Desert. Morris revealed that in forty-nine of these villages the indigenous Arabs were expelled by the Haganah and other Jewish military forces; in sixty-two villages, the Arabs fled out of fear, having heard rumors of attacks and even massacres; in six, the villagers left at the instruction of Palestinian local leaders. The refugees, who probably expected to return to their homes in a matter of weeks or months, went to Gaza and the West Bank, and also to surrounding Arab countries—Lebanon, Jordan, Egypt, and Syria—where, to this day, they have never been fully absorbed.
Revolutionary Fish
Facebook is so 2007
O fim do PSD?
Acabei de ouvir, na TVI, Miguel Sousa Tavares a colocar a hipótese do fim do PSD. O argumento é que nenhuma facção vai conseguir conviver com a que ganhar, o que poderá levar a uma cisão. Os comentadores são pagos para fazer profecias ousadas. Mas embora não concorde com a premissa base de Sousa Tavares - que o partido não aguenta lutas ferozes de facção porque não tem ideologia e porque só quer poder - a tese do fim do PSD não me parece totalmente descabida.
Mas o meu palpite assenta na premissa oposta: de que o actual combate pela liderança é o mais ideológico da história do PSD (descontando os anos 70). Se perguntarmos a qualquer pessoa qual foi até hoje a mais marcante eleição pela liderança do PSD, a maior parte, senão todos, dirá que foi a que se seguiu à demissão de Cavaco Silva do cargo de primeiro-ministro e que colocou frente-a-frente Fernando Nogueira, Durão Barroso e Santana Lopes. Mas alguém pensa que esse debate foi ideológico? Esse sim foi um combate por poder, pelos despojos do dia, pela primazia no processo de renovação geracional do partido. Ironicamente, o único que tentou discutir ideologia nesse congresso foi Menezes, com o “elitista, sulista e liberal” - os assobios que se seguiram mostraram que o partido não queria discutir facções nem ideologias, mas sim pessoas.
Ao contrário, a campanha em curso está a assumir uma natureza muito mais “divisionista” e ideológica. As divisões têm merecido a maior parte da atenção. A dicotomia bases-elite não é de agora mas que nunca foi tão central e brutal. Três dos muitos exemplos:
Marco António Costa questionou ainda se o futuro líder do partido «será um candidato com um projecto basista, na linha do velho PPD, ou alguém que vai repensar politicamente o partido, como um movimento de quadros superiores, com pouco contacto com a realidade».
Alberto João Jardim revelou ainda que a Comissão Política Regional do PSD-M está preocupada com a fragmentação do partido e «sobretudo pela tentativa de uma certa burguesia dos salões de Lisboa e do Porto, com o apoio de um conhecido empresário de televisão, tentar desvirtuar um partido popular e social-democrata como é o PSD»
“Faço votos para que aquele que vencer as próximas eleições faça com que haja uma verdadeira representação no Parlamento daqueles que trabalham por conta de outrem e não apenas de empresários e profissionais liberais”, disse.”Falo com o coração, mas o recado está dado”, acrescentou Mendes Bota.
Quanto à ideologia - um aspecto que tem sido menos salientado* - começou esta semana a criar-se um claro fosso entre por um lado Manuel Ferreira Leite, com uma posição fiscally conservative, e por outro Pedro Passos Coelho e Pedro Santana Lopes, com posições do tipo supply side economics misturadas com keynesianismo - descer impostos, estimular a economia, etc. O título deste artigo da Lusa diz tudo: “Passos Coelho e Santana defendem nova política económica, coincidindo nas críticas à aposta excessiva na redução défice”.
Seguindo esta via Passos Coelho e Santana Lopes optaram portanto por um caminho de diferenciação clara face a Ferreira Leite mas também face a Sócrates. A Ferreira Leite resta afirmar-se como mais eficaz do que Sócrates, o que talvez não cole pois, caso ganhe, o PS focará a campanha no track-record de Ferreira Leite na pasta das finanças. Mas o caminho da diferenciação radical também tem custos. Tudo depende de se saber se a generalidade dos portugueses interiorizou as vantagens de um deficit controlado, se estão dispostos a deitar a perder os sacrificios realizados e se se lembram desse grande estímulo económico provocado pela despesa de Guterres.
Os partidos podem e devem ter debates ideológicos e lutas internas de clarificação. Quando não matam, estes movimentos tornam os partidos mais fortes. Mas podem matar.
* - Ao ponto de alguns nem o verem. Veja-se por exemplo este post de Luís Rainha, no 5 dias, que cai no facilitismo de uma certa esquerda que adora pensar que apenas ela pensa.
Newspeak
Os slogans do Rádio Clube Português estão cada vez mais estranhos e orwellianos. Os já conhecidos:
Dá voz às palavras
Contado por nós, você acredita
O novo:
O que pensa começa no que ouve
Será que devemos ficar preocupados?

Links

- Artigo sobre o novo livro de Peter Gay, “Modernism”.
- “It’s Not Just About Killing Hookers Anymore” - A Slate sobre o novo Grand Theft Auto.
- “How to fix the web”, por Robert Scoble, na Fast Company, uma boa introdução a um dos maiores desafios - a balcanização da internet - e oportunidades actuais - agregação/organização da informação. Nesse contexto, o novo site FriendFeed, muito publicitado por Scoble, é um bom exemplo.
- Posner e Becker escrevem sobre regulação, o que dá jeito pois ontem o Tribunal de Contas publicou isto.
Marginal Revolution
O estudo sobre “Os Jovens e a Política”, conduzido pela Universidade Católica, encomendado e mal-interpretado pelo presidente da república, é a melhor notícia de Abril. Principalmente a primeira conclusão do relatório:
Quer de um ponto de vista quer absoluto quer comparativo, é notória a insatisfação dos portugueses com o funcionamento da democracia, assim como a existência de atitudes favoráveis a reformas profundas ou mesmo radicais na sociedade portuguesa. Contudo, entre os mais jovens (15-17 anos) e os jovens adultos (18-29 anos), essa insatisfação é algo menos pronunciada do que entre os mais velhos, assim como tendem a existir entre eles atitudes mais favoráveis (especialmente entre os mais jovens de todos) a reformas incrementais e limitadas na sociedade portuguesa.
A oitava conclusão também é interessante (embora não mereça referência na análise de João Pinto e Castro no 5 Dias, talvez por lapso freudiano) e surpreendente apenas para os mais distraidos (como Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, que de há uns meses para cá insiste que a fórmula para a vitória do PSD é a insistência na “categoria” centro-esquerda*):
O posicionamento ideológico dos jovens tende a estar mais à direita do que a generalidade da população, mas aquilo que mais claramente os distingue é o facto de percepcionarem menor utilidade das categorias “esquerda” e “direita” na compreensão da vida política. Este maior “desalinhamento” ideológico também se reflecte num maior desalinhamento partidário.
Suspeito que os “problemas de interpretação” a que temos assistido nos últimos dias explicam-se pelo carácter pouco simpático, para políticos e jornalistas, das conclusões do estudo. Afinal, ninguém gosta de concorrência.
Já no que diz respeito ao voto, a sua eficácia, do ponto de vista dos jovens, sofre a “concorrência” de outras formas de participação, especialmente a ligada ao associativismo e ao voluntariado.
Os jovens encontram-se menos expostos à informação política pelos meios de comunicação convencional do que o resto da população. E em geral - e não apenas aqueles que ainda não chegaram à idade do voto - os jovens tendem a exibir menores níveis de conhecimentos políticos.
* - (ADENDA) No quadro 47 “Colocação na escala esquerda-direita por faixa etária”, constata-se que apenas o grupo “65 anos e mais” mostra uma ligeira tendência centro-esquerda.
Discursos políticos no cinema
Não gosto deste discurso, mas a sua raridade merece uma referência: não existem muitos exemplos de discursos tão marcadamente ideológicos como este e tão marcadamente de direita (de um tipo de direita, pelo menos). O discurso vem do livro Fountainhead, de Ayn Rand. Como se sabe, Rand foi uma autora de culto para muita gente nos anos da guerra fria (e mentora de, entre outros, Alan Greenspan). Embora concorde com algumas das ideias da obra dela (as que não são dela…), o estilo dá-me arrepios - o ”self-righteousness”, a fúria, o espírito vingativo, etc. Talvez com algum exagero, Whittaker Chambers, comentando um outro livro famoso de Rand, referiu: “From almost any page of Atlas Shrugged, a voice can be heard, from painful necessity, commanding: ‘To the gas chambers–go!’…”.
O filme é de King Vidor e o papel principal - Howard Roark - está a cargo de Gary Cooper. Foi a própria Ayn Rand que adaptou o argumento.
(Via American Rhetoric)
Candidatos PSD
Como esperado, as eleições no PSD estão animadas. Em relação aos três principais candidatos, tenho neste momento estes comentários:
• Pedro Santana Lopes é candidato não se sabe bem porquê. Será que (ainda) pensa que tem a obrigação de estar “disponível para combate” sempre que há eleições? Não sei se Pedro Santana Lopes sabe que, caso ganhe, será o candidato do PSD às eleições do próximo ano! Não faz sentido nenhum que o PSD apresente às eleições o líder que foi afastado por José Sócrates, sobretudo nas condições em que foi. Eu presumo que Santana Lopes saiba disso, o que significa que concorre para perder - uma pessoa que já foi primeiro-ministro, concorre às eleições do seu partido só para perder, só para aparecer na televisão? É andar demais a brincar à política para o meu gosto. Para bricadeiras, mais valia terem apresentado o Ribau Esteves como representante da ala: ao menos esse sabe falar de futebol.
• Manuela Ferreira Leite é uma candidata conhecida pela sua seriedade, capacidade de trabalho, e boas intenções. Os seus méritos não serão suficientes, no entanto, para ganhar a Sócrates, desde que este não se desoriente. Aliás, olhando para a curta história da democracia estável portuguesa, não houve até ao momento quem conseguisse roubar uma eleição a um primeiro-ministro minimamente estabelecido. Manuela Ferreira Leite será criticada pelo seu trabalho nas contas públicas, mas é à partida uma líder para aguentar eleitorado, preparar as águas para quem se segue e eventualmente lutar pelo fim da maioria absoluta do PS (sobretudo se a economia desapontar). Talvez experiente demais para andar a fazer fretes, mas reconheça-se o seu esforço.
• Pedro Passos Coelho é uma incógnita. Depois dos anos na JSD*, eu e a larga maioria dos portugueses pouco ouvimos dele. Por muito ou pouco que simpatize com ele, não faço ideia do que pensa. Apesar de ter trabalhado na política todos estes anos, é estranho não ter tido ainda um cargo executivo. Usando uma métrica com muito pouco interesse apresentada por Santana Lopes nas eleições de 2005, Pedro Passos Coelho tem 150 mil hits no google.pt, enquanto Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes conseguem 247 e 326 mil, respectivamente. Pedro Passos Coelho não me parece que tenha página no wikipedia (”Luís Menezes, importas-te de criar uma?”). Nesse sentido, de todos os candidatos, Passos Coelho é o que necessita mais urgentemente de apresentar as suas ideias (terça-feira). Pode ser uma cara que os portugueses queiram ouvir, mas é um tiro no escuro. Tem o apoio de Nogueira Leite, Rita Marques Guedes, Miguel Relvas, entre outros. Maioria dos apoiantes, jovens políticos “looking for change”. Tem agora também o apoio da concelhia do Porto, apesar de não ter passado no requisito número um de não ter curso superior. É uma solução de mudança, apesar de estar no partido há mais de 20 anos. Pode ser a simpatia que contraste com os momentos de irritação de Sócrates. Até pode ser que seja, mas ainda é cedo para dizer. Veremos que tão interessante se torna.
*Pela forma como se tornaram, tenho as minhas reservas em relação em quem passou muito tempo nas Jotas, mas Passos Coelho ao menos fez um bom trabalho.
Fresh Fish

Sobre o aumento dos preços dos produtos agrícolas e os seus efeitos nas economias menos desenvolvidas, vale a pena ler duas visões de como resolver o problema a médio prazo . Tyler Cowen defende o aumento da liberalização do comércio internacional. Para se pôr a opinião de Cowen em perspectiva, leia-se o comentário de Dani Rodrik. Noutra opção, muito em linha com o seu trabalho, Esther Duflo sugere o desenvolvimento da actividade seguradora para fazer face à volatilidade dos preços dos bens alimentares. Tema a desenvolver aqui no codfishwaters.
Political Fish




[Via Barnabe, 2004]
Os melhores discursos políticos no cinema II
“Greed, for lack of a better word, is good” - Depois de Shakespeare, é difícil manter o nível. Mas este famoso discurso de Gordon Gekko/Michael Douglas no filme Wall Street é já um clássico - e é bastante político, ao contrário do que se poderia pensar. Ao longo dos anos o “for lack of a better word” foi caindo, tendo ficado na cultura popular apenas o “greed is good” como grande slogan do capitalismo dos anos 80. Ver todo o discurso permite colocar o ”greed” em contexto e perceber que o uso do termo é feito de uma forma sofisticada e inteligente (para além disso, está muito bem filmado - reparem por exemplo no movimento de pessoas durante o discurso).
Os melhores discursos políticos no cinema
“We few, we happy few” - o chamado St. Crispin’s day speech, da peça Henry V, de Shakespeare, é um dos mais extraordinários discursos alguma vez escritos. Ao longo dos anos tem sido estudado e admirado nas academias militares e escolas de gestão. Esta versão é a de Kenneth Branagh.
Sociólogos Sociófilos
A propósito deste post, comecei a pensar sobre a relação entre as diferentes ciências sociais e as ideologias políticas. Imediatamente pensei na sociologia, pois nenhuma disciplina académica é tão ideologicamente marcada. Mais que isso, apenas a sociologia é clara e inequivocamente ideológica. Com isto não se pretende dizer que as outras disciplinas das humanidades são imunes à política. Têm fases, evoluem, há modas, lutas entre tendências, etc. Mas apenas a sociologia é constante e consistentemente de esquerda. Este facto, por si só, devia gerar fortíssimas dúvidas sobre o carácter de “ciência social” da sociologia.
Alguns estudos recentes nos EUA têm tentado quantificar estes aspectos. Uma forma simples de o fazer, embora com limitações, consiste na aferição das simpatias partidárias dos académicos. Claro que o carácter idológico da sociologia é mais profundo do que isso - relaciona-se com a natureza da disciplina, com os próprios objectos de estudo, metodologia, etc. Mas as atitudes dos praticantes são também relevantes. Este estudo realizado em 11 universidades da Califórnia, e que é analisado neste blog, sugere uma forte tendência de esquerda entre os académicos em geral…
The study, by Christopher F. Cardiff and Daniel B. Klein, finds an average Democrat:Republican ratio of 5:1, ranging from 9:1 at Berkeley to 1:1 at Pepperdine. The humanities average 10:1, while business schools are at only 1.3:1. (Needless to say, even at the heartless, dog-eat-dog, sycophant-of-the-bourgeoisie business schools the ratio doesn’t dip below 1:1.)
…que se torna esmagadora na sociologia:
What department has the highest average D:R ratio? You guessed it: sociology, at 44:1
Há várias tentativas de explicar esta “parcialidade”. Algumas explicações dizem respeito especificamente à sociologia, outras relacionam-se com a predominância do pensamento de esquerda nas universidades em geral e nas humanidades em particular. Sobre esta questão mais vasta, houve em Dezembro último uma interessante discussão no blog de Gary Becker e Richard Posner.

Historiadores Conservadores
Se calhar estou a ser vítima de um qualquer cognitive bias, mas quando penso nos historiadores que marcaram o debate intelectual das últimas duas décadas, principalmente na área da política externa, só me lembro de conservadores. Será verdade? Haverá alguma razão para tal? Qual o significado deste dado? Há artigos sobre isto?
Alguns exemplos: Francis Fukuyama, Samuel Huntington, Timothy Garton Ash, Andrew Roberts, Bernard Lewis, Robert Kagan, Niall Ferguson…
Deste último vale imenso a pena ver esta conferência, que em pouco mais de meia hora arrasa a doutrina de política externa de Bush e elenca as limitações do “reluctant american empire”.
Rosencrantz and Guildenstern and Shakespeare are Dead
Shakespeare morreu no dia 23 de Abril, há 392 anos.
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.

Elitista, Sulista, Liberal e Quadro Superior
Marco António Costa questionou ainda se o futuro líder do partido «será um candidato com um projecto basista, na linha do velho PPD, ou alguém que vai repensar politicamente o partido, como um movimento de quadros superiores, com pouco contacto com a realidade».
Those were the days…
Dando crédito à evolução do Wall Street Journal, vale a pena ler o artigo sobre os dias de luta política de Obama em Chicago e como estes influenciaram o candidato democrata às presidenciais americanas. Como diz Don Rose, um consultor político:
Chicago was his Harvard of politics. Had he gone to Cleveland or New York or Atlanta, it might have been a different path.
À volta deste tópico, está a discussão sobre a capacidade de Barack Obama de ser eficaz no combate contra os republicanos na campanha final de Novembro, assim como de perceber se é capaz de enfrentar a dureza de uma Presidência dos EUA. Este debate surge na sequência de algumas críticas em relação à performance de Obama nas últimas semanas durante a campanha para as primárias de amanhã na Pensilvânia.

Murdoch e o seu WSJ

No seguimento da aquisição do Wall Street Journal pelo magnata dos media Rupert Murdoch, o jornal vai mudar esta semana de imagem e, aparentemente, aumentar a importância das secções de política, notícias internacionais, cultura e desporto. Com estas alterações, o Wall Street Journal pretende competir directamente com o NY Times como jornal genérico de referência. Vamos ver se consegue ter sucesso neste caminho, sem pôr em causa o seu mercado na área financeira/económica. O Financial Times deve estar a observar este movimento com especial interesse. A Newsweek desta semana tem um extenso artigo sobre Rupert Murdoch e o seu projecto para o Wall Street Journal.
Luís Filipe Menezes
Luís Filipe Menezes é líder do PSD desde há pouco mais de 6 meses. Foi tempo suficiente para dizer coisas tão interessantes como:
Vou ouvir Portugal.
Proponho desmantelar o estado em 6 meses.
Parafraseando John Wayne sinto nesta altura que está quase toda a gente contra mim excepto o povo.
Os resultados evidentes da minha liderança estão na origem de alguma borbulhagem que anda no ar.
PSD ainda não merece ser Governo, PS já não merece.
Mais do que uma revisão, o país precisa é de uma nova Constituição.
Está na altura de o Governo nomear para presidente da CGD uma personalidade próxima da área do maior partido da oposição.
Luis Filipe Menezes tem sido activo, feito comentários, apresentado-se ao país. Ideias concretas, poucas. Talvez a “única” proposta até ao momento tenha sido a descida de impostos, ainda não percebi com que argumento. O resto são comentários a vulso.
Na realidade, dadas as poucas hipóteses de virmos a ser governados por Menezes, quase que me atrevo a dizer que o que ele pensa para “Mudar Portugal” é pouco relevante. Mais interessante é o circo da luta na oposição. E aí, o Governo teve desde o início do ano os piores meses desde que foi eleito, e o maior partido de oposição não soube tirar dividendos disso. Mais, entrou em guerrinhas internas. Como diz o sábio Ribau Esteves, “ganhem juízo”. Claro que as guerrinhas resultam em certa medida da incapacidade de Menezes, mas quem as provoca deveria ter antecipado que o Governo poderia deslizar, antes de ter aceite eleger mais uma vez um líder “a prazo”. Agora estes líderes que só aparecem quando é para ganhar, viram que talvez ainda exista um restinho de esperança que Sócrates perca as próximas eleições. Acontece, que na prática, já devem vir tarde de mais.
Sendo assim, é natural que Luís Filipe Menezes arrisque. Se Menezes decidir avançar, as eleições antecipadas no PSD são uma forma de legitimização do seu poder, quando falta pouco mais de um ano para as eleições legislativas. Se a tal vaga de fundo aparecer, Menezes dá um passo de gigante para se manter como Presidente do PSD até às eleições de 2009. Menezes antecipa-se, desta forma, às conspirites e marca a agenda do futuro do partido. Caso não avance para a liderança do partido, como tem dito até ao momento, pelo menos não sai à “bomba”, aparecendo como o pobre coitado, vítima de um cartel de burgueses da Foz e de elitistas liberais do Sul.
Nas próximas semanas, vai-se falar de renovação, de abrir à sociedade civil, de Citroens (com as directas, menos), de “não estou interessado em discutir nomes, mas de ideias e projectos para Portugal”, enfim, vai ser animado. O circo continua e estamos cá para ver. E como nos avisa mais uma vez o sábio Ribau Esteves, ainda bem que é só um mês de discussão porque “em Junho queremos estar todos a apoiar solidariamente a selecção nacional de futebol”.
[Fotografia via 31 da Armada]
Secção “Livros sobre Portugal”

Se um movimento das bases e distritais do partido lhe pedir que se recandidate, Luís Filipe Menezes ainda poderá reconsiderar a sua posição. O líder do PSD convocou directas antecipadas para 24 de Maio e disse “não estar na corrida”, mas homens-chave do aparelho afectos a Menezes já começaram a movimentar-se para pôr em marcha a onda que possa levar à recandidatura do líder (Expresso).
Reading tea leaves

Três meses e meio:
- Substituição do ministro da saúde a meio de uma reforma e não apenas por razões de estilo, como ficou claro no caso de Anadia e outros;
- Cedência aos sindicatos dos professores, que simpaticamente autorizaram uma avaliação pouco digna desse nome - isto após um inquérito da eurosondagem no qual 64% da população era contra a suspensão da avaliação e 84% considerava que os professores não deviam fazer mais greves;
- Aplicação residual do quadro de mobilidade especial enquanto instrumento de redução do número de funcionários públicos, que tem sido substituido por novos e caros planos de reformas antecipadas;
- Primeira descida de impostos desde pelo menos 2001, com o corte de 1 p.p. no IVA.
Como já foi referido por muitos, estes sinais sugerem uma travagem nas reformas e o início da campanha eleitoral de 2009. O dilema de Sócrates é o dilema de todos os políticos perante o ciclo eleitoral: persistência, pondo em risco maioria absoluta, cedência, pondo em risco resultados obtidos. Mas como a ciência política não é uma ciência, são tantas as excepções que é difícil afirmar regras. Guterres, por exemplo, poderá ter falhado a maioria absoluta mais pelas cedências do que pela firmeza. As últimas semanas mostram uma tendência para uma postura menos restritiva. Veremos o que os próximos meses nos reservam, porque também existem acções de sinal contrário. Mas o verdadeiro problema de Sócrates é que nenhum primeiro-ministro subiu tanto a parada em relação à disciplina orçamental, pelo que se houver um deslize, a queda de credibilidade será mais acentuada. Um problema relevante mas menos importante, mais do teatro político, é que Sócrates tem um talento natural para dar más notícias, para estar mal disposto, mas não é muito convincente a dar boas notícias e a distribuir benesses.
Penso que neste momento Sócrates acha que pode ter o bolo e comê-lo, o que é ilustrado pela forma como justificou a descida do IVA: a ideia de que se pode aliviar os portugueses um bocadinho porque o deficit está mais controlado. O primeiro ministro acha que conquistou uma almofada ou folga, que faz com que possa ser “severo”, mas não tanto como no passado, e “simpático”, mas não tanto como o PS quer. Esta estratégia é arriscada porque em política as posições cinzentas até podem ser correctas mas são sempre mais ambíguas. E quando as posições são ambíguas gera-se uma tendência para a intensificação da pressão política e para as guerras de bastidores no governo. Poderá bastar a conjugação de um menor controlo de Sócrates sobre a despesa pública com um acentuar da crise internacional para que esse inesperado deslize se dê, pondo em causa o trabalho do governo e, mais importante, o esforço que o país fez nos últimos anos.
Insultos: uma nova ambição
O meu problema com Alberto João Jardim não é tanto o recurso regular ao insulto, mas mais o pouco empenho que demonstra nesta actividade. Preferia que não insultasse. Mas já que o faz, era óptimo se fosse mais original e exigente. Este fim-de-semana referiu que os deputados da assembleia regional da madeira eram “um bando de loucos”. Directo mas pouco ambicioso.
Ainda por cima a história política e literária constitui uma inesgotável fonte de inspiração. Alguns exemplos:
- “She plunged into a sea of platitudes, and with the powerful breast stroke of a channel swimmer, made her confident way towards the white cliffs of the obvious.”, W. Somerset Maugham
- “He has no enemies, but is intensely disliked by his friends.”, Oscar Wilde
- “He can compress the most words into the smallest idea of any man I know.”, Abraham Lincoln
- “He loves nature in spite of what it did to him.”, Forrest Tucker
- “His ignorance is encyclopedic.”, Abba Eban
- “He uses statistics as a drunken man uses lamp-posts - for support rather than illumination.” Andrew Lang
Para treinar existe ainda este útil site que gera insultos Shakespeareanos.

O Bom Rebelde
Fernando Coelho, presidente da gestora de activos do Banco Espírito Santo (que gere mais de 20 mil milhões de euros) e recém-nomeado presidente da Associação de Fundos de Investimento Portugueses, afirma, em entrevista ao Diário Económico, que ”o pior da crise financeira internacional já passou”. Humildemente, reconhece alguns erros cometidos no sector que representa:
Havia uma disfunção clara entre o que era o ‘pricing’ dos activos e aquilo que consideramos ser o risco dos activos
O Diário Económico tranquiliza-nos: ”todos os intervenientes nos mercados financeiros tiraram lições da crise de ’subprime’ que estalou para as bolsas e Fernando Coelho não ficou atrás”:
A crise serve para dizer se dantes tínhamos 80% de um produto e 20% dos outros. Agora se calhar devemos colocar 50% num e os restantes 50% noutros. Tem que existir uma maior diversificação (…) numa situação de crise deveríamos estar mais diversificados”.
Mas talvez porque a crise tenha acabado, talvez porque as lições tenham sido retiradas:
Fernando Coelho afirmou que considera que o actual momento é favorável para os investidores regressarem aos mercados financeiros, mas com cautela. Diversificar é a palavra de ordem
Sabemos que há corporativismo em todos os sectores. Fernando Coelho, como um bom rebelde, rompe o consenso do FMI, BP, BCE, Fed, dando-nos boas notícias com reduzida base de sustentação. Naturalmente compreendemos que o faz por ser parte interessada nesse regresso dos investidores aos mercados financeiros. Até aqui tudo previsivel, embora este tipo de postura ponha um pouco em causa o mito de que os bancos têm interesse numa postura de sobriedade e moderação na sua auto-promoção (build trust). Mas o que me causou verdadeira perplexidade é a forma extraordinária como Fernando Coelho fala de duas “diversificações”: a do passado, que correu mal, e a do futuro, que vai certamente correr bem.
Petraeus II
Previsões

No seguimento de nova redução da previsão de crescimento económico para Portugal por parte do FMI, o primeiro-ministro José Sócrates foi muito determinado a explicar que a organização internacional está a ser “excessivamente pessimista”. Num comentário à saída do Parlamento, Sócrates afirmou:
Confio em quem conhece melhor o país, o governador do Banco de Portugal. Mantemos a nossa previsão, não temos nenhuma razão para alterar (RTP1).
O governador do Banco de Portugal, por outro lado, parece querer demarcar-se deste “excessivo optimismo” e em comentários à TSF, deu “um puxão de orelhas” ao governo por continuar tão confiante. É provável que Sócrates muito em breve tenha que engolir mais uma vez as suas afirmações, o que poderia ser evitável se tivesse sido mais comedido. Por muito boas dinâmicas internas que Portugal possa ter, é apenas natural que sejamos afectados pelo abrandamento internacional. Há um factor, a crise internacional, que Sócrates e Portugal não controlam e que deveria ser elemento determinante nos comentários do primeiro-ministro. Entendo que o Governo pretenda dinamizar a confiança dos investidores, mas se o que diz está constantemente a ser posto em causa, perde toda a credibilidade. O executivo mantém uma previsão de 2.2% e o governador fala em taxas “certamente abaixo dos dois por cento”. Esperemos para ver os próximos capítulos, mas nesta situação sinto-me mais tentado em apostar em Constâncio do que em Sócrates.
Dito isto, é preciso cautela com as previsões do FMI. Da minha experiência em mercados financeiros, estas análises multi-países tendem a esquecer idiossincracias particulares. Quando se reduz expectativas por choques que afectam todos os países, normalmente faz-se género tábua raza, sem ter em conta as especificidades de cada região. Se há um país com dinâmicas próprias, é comum “levar por tabela”. Eu não sei se o número do FMI é mais ou menos válido que o do Banco de Portugal (ainda não há um número actualizado oficial), mas aqui não se aplica necessariamente o dito bem português que o “que vem de fora é que é bom”.
Adenda - Graças a um comentário de um leitor, tive acesso às declarações de Vitor Constãncio (http://www.tsf.pt/online/common/include/streaming_audio.asp?audio=/2008/04/noticias/11/constancio.asx) e apesar de os factos que comentei acima serem reais (há uma diferença clara entre o discurso de Sócrates e de Constâncio), parece que o Governador do Banco Portugal nunca utilizou a palavra Governo no seu depoimento, ou seja, não desafiou frontalmente José Sócrates como a notícia do Público faz transparecer. Aparentemente o Público fez uma interpretação abusiva do comentário de Constâncio. A leitura mais uma vez a tirar é que temos que ter muita cautela na confiança que depositamos nalguns jornais.
O eterno Jota
Pedro Passos Coelho ao Correio da Manhã, no seguimento de uma sondagem pouco animadora para o PSD:
CM – Luís Filipe Menezes tem condições para vencer as eleições?
PPC – Começa a ter um caminho muito estreito para o fazer. Deve ser a equipa a fazer essa análise dos resultados. O resultado é mais um sinal que acentua a tendência de descredibilização que o PSD vem tendo aos olhos da sociedade portuguesa.
CM – Está disponível para ser candidato a líder do PSD?
PPC– Se no PSD se achar que é tempo para mudança de órgãos sociais e nova liderança estarei disponível para apresentar uma alternativa ao Governo PS.
CM – Já em 2009?
PPC – Se vier a acontecer, sim.

Political fish
Greenwashing
Ainda no tema ambiente, um comentador que normalmente me irrita bastante, Thomas Friedman, do New York Times, põe em perspectiva o real impacto dos nossas virtudes ambientais individuais. Referindo-se a duas cidades que em poucos anos surgiram do nada e que portanto passaram a consumir energia e a poluir, refere:
Hey, I’m really glad you switched to long-lasting compact fluorescent light bulbs in your house. But the growth in Doha and Dalian ate all your energy savings for breakfast. I’m glad you bought a hybrid car. But Doha and Dalian devoured that before noon. I am glad that the U.S. Congress is debating whether to bring U.S. auto mileage requirements up to European levels by 2020. Doha and Dalian will have those gains for lunch - maybe just the first course. I’m glad that solar and wind power are “soaring” toward 2 percent of U.S. energy generation, but Doha and Dalian will devour all those gains for dinner. I am thrilled that you are now doing the “20 green things” suggested by your favorite American magazine. Doha and Dalian will snack on them all, like popcorn before bedtime.
A ideia não é cruzar os braços e deixar de ter cuidado com o ambiente só porque o impacto é diminuto. Um certo “frame of mind” colectivo vai sendo construído com as acções individuais e essa mudança de atitude pode mais tarde estimular ganho reais e globais.
Mas aqueles que ostentam uma aureola divina porque, por exemplo, reciclam, deviam pensar nesta questão e talvez ser mais humildes na sua virtude. Houve já quem tivesse apontado os paralelismos entre religião e ambientalismo (divindade da natureza, o mal é provocado pelo homem, visões apocalipticas, etc.), considerando, nomeadamente, que os offset de carbono são as indulgências do século XXI, pois primeiro peca-se, depois paga-se para compensar. Uma certa ostentação pode contribuir para o crescimento do cinismo à volta deste tema. E como vemos em algumas pessoas e em tantas empresas, uns rápidos e indolores sinais exteriores de correcção ambiental tranquilizam algumas almas, mas produzem muito pouco.
Gore Details
Al Gore anunciou na semana passada uma mega-campanha sobre mudanças climáticas, porque, nas suas palavras “We can solve the climate crisis, but it will require a major shift in public opinion and engagement”. A campanha tem um orçamento de 300 milhões de dólares. Se há decisão que mostra as forças e as fraquezas de Al Gore é esta. Muito por seu mérito, o aquecimento global está hoje no centro da agenda mediática. Mesmo tendo em conta cenários menos pessimistas, pode-se argumentar que este trabalho tinha que ser feito pois tanto as populações como o poder político precisavam de ser alertados para os possíveis cenários negativos. Até porque qualquer proposta séria terá elevados custos económicos e sociais. Claro que tem havido alarmismos e histeria da parte de vários sectores e, não sendo dos piores, Gore tem sabido, no entanto, explorar de forma eficaz o medo latente das pessoas.
Gore é um comunicador. Isso é muito importante. Mas é apenas um aspecto desta questão. Outros aspectos prendem-se com o debate político, científico e com a análise de políticas públicas. O lançamento desta campanha mostra que Gore chegou ao final de um caminho (percorrido com sucesso) e em vez de passar o testemunho, decide voltar à casa de partida.
Ressalvando as enormes diferenças, num certo sentido pode-se fazer um paralelo com o SIDA. No início foi necessário fazer mega-campanhas porque as pessoas tinham que ganhar consciência do problema, dos perigos, das formas de prevenção, etc. Também aqui a comunicação por vezes exagerou, mas em última análise foi eficaz no combate ao preconceito que a doença gera e, principalmente, na educação para a prevenção. Mas de forma gradual o debate e os progressos à volta da questão passaram a ser cada vez mais políticos, mais centrados na medicina, mais científicos.
Tal como no SIDA, em relação ao aquecimento global pode ser importante ir fazendo algumas campanhas. Mas talvez já seja o tempo de tornar este debate mais sereno, mais orientado para as políticas públicas, mais técnico. E, nessa nova fase, Gore não é manifestamente a pessoa certa para liderar.

David Sipress, New Yorker
Petraeus

O General Petraeus e o embaixador Crocker estão nestes dias a explicar os desenvolvimentos no Iraque ao Comité de Relações Internacionais do Senado (com a presença dos três candidatos à Presidência dos EUA). O depoimento inicial de Petraeus aqui. Comentários aqui, aqui e aqui. Vale a pena também ver a apresentação que Petraeus trouxe ao Senado - Petraeus (via Newsweek). Interessante igualmente recordar o que Petraeus dizia em 2004 sobre o mesmo assunto:
There will be more tough times, frustration and disappointment along the way. It is likely that insurgent attacks will escalate as Iraq’s elections approach. Iraq’s security forces are, however, developing steadily and they are in the fight. Momentum has gathered in recent months. With strong Iraqi leaders out front and with continued coalition - and now NATO - support, this trend will continue. It will not be easy, but few worthwhile things are.
Pinho sobre o IVA
Manuel Pinho, num momento de pouca iluminação, comparou a descida do IVA a 5 semanas de factura de electricidade nacional. Num daqueles rasgos políticos de tentar tornar os grandes números (500 milhões de euros em 2009) em coisas do dia-a-dia que os portugueses entendam, o governante procurou estabelecer um pararelismo com algo que diz-nos pouco. O que são 5 semanas de electricidade? Ninguém paga facturas de 5 semanas. Não há outras comparações mais fáceis? Não percebo se foi uma piada ao Belmiro de Azevedo (por a Sonae pagar preços industriais pela electricidade), mas que foi fraco, isso julgo que foi.
O Ministro da Economia disse ainda que:
“Não faço parte dos que julgam que baixar o IVA em um ponto percentual é uma migalha. Não sou suficientemente rico para pensar isso”.
Para além de dirigida ao PSD, esta sim foi direitinha a Belmiro de Azevedo, sem passar pela casa da partida e sem receber 2 contos. Agora, por muita graça que o Ministro tenha, em primeiro lugar, piadas do género “puxa, é mesmo muita massa, só os ricos oligopolistas é que sabem o que isso é”, julgo desajustadas. E depois, duvido que Manuel Pinho tenha que estar a rebater as opiniões de empresários reformados, cada vez que uma nova medida seja introduzida.
Psicologia e psiquiatria

O blog Freakonomics juntou especialistas em psicologia e psiquiatria e pediu-lhes para apresentarem a sua opinião sobre o desenvolvimento e progressos destas áreas no último século. Subjacente a esta pergunta está uma preocupação em relação ao grau de efectividade e de segurança dos medicamentos actualmente receitados para doenças relacionadas. Entre os comentários, que incluem orientações tão distintas como biologia molecular ou behavioral economics, estão os seguintes:
The environment has a large effect on our behavior…if we want to have a validly descriptive model of human behavior we must incorporate the environmental variables into our models. Dan Ariely
Do we know enough about the human psyche to prescribe the medications that we do? No. But we have had to do something, because people all over the world regularly try to kill themselves. John Medina
Humans are a complex and messy species and as such continue to offer psychology plenty of material to work with. David Baker
I think the field of psychology began making important and cumulative progress when it ceased to be a social science, and became a natural science. Psychology is really a branch of biology or zoology. Satoshi Kanazawa
Codfish Review
Cenouras-e-Paus
A propósito da crise dos mercados financeiros, escrevi há uns dias sobre a dificuldade em aceitar a incerteza (que é diferente do risco). Nos últimos anos houve um excesso de confiança nas capacidades de elegantes e sofisticados modelos financeiros de análise de risco. Pode-se argumentar que os modelos são tentativas honestas de lidar com a incerteza e que de todas formas não pretendem fornecer certezas absolutas. Pode-se ainda perguntar qual é a alternativa aos modelos. Tudo pontos legítimos. Mas penso que é também legítimo perguntar se uma “unintended consequence” dos modelos não será, ironicamente, a assunção de maior risco. Ou seja, as ilusões de controlo que fornecem podem tornar os agentes menos cautelosos.
Mas a actual crise está longe de ter um só “culpado” (tem-se constatado na imprensa portuguesa as previsíveis diabolizações da banca, que esquecem o papel do Estado, dos reguladores e dos bancos centrais nesta a crise). Outro aspecto que tem sido salientado nos últimos tempos é o problema dos incentivos dentro das instituições financeiras. Simplificando uma ideia complexa, o ponto geral é que os bancos têm incentivos para assumir elevados graus de risco porque capturam os resultados positivos e, em determinadas circunstâncias extraordinárias, repercutem os resultados negativos pela sociedade como um todo (devido ao papel central que ocupam nas economias modernas). Por outro lado, a estrutura de compensações actualmente praticada produz decisões que sacrificam a estabilidade e o risco de médio e longo prazo em benefício dos resultados de curto prazo (que “entram” directamente no bónus). Neste tema, os seguintes três artigos do Financial Times têm sido muito discutidos:
- Why banking is an accident waiting to happen, Martin Wolf, 28 de Novembro de 2007
- Regulators should intervene in bankers’ pay, Martin Wolf, 15 de Janeiro de 2008
- Bankers’ pay is deeply flawed, Raghuram Rajan, 8 de Janeiro de 2008

“Compartimos” ou nem por isso
O microcrédito foi introduzido por Muhammad Yunus no Bangladesh há mais de 30 anos como uma forma de fornecer empréstimos a pessoas no limiar da pobreza que não têm colateral e não são servidos pelos bancos tradicionais. Desde a fundação do Grameen Bank até hoje, o número de instituições de microcrédito e de pequenos empresários (ou melhor, empresárias, porque são na larga maioria mulheres) cresceu de uma forma exponencial em todo o Mundo subdesenvolvido, assim como a variedade de serviços prestados. Hoje em dia uma instituição de microcrédito disponibiliza serviços de depósitos, seguros, saúde, etc.
As grandes discussões sobre estes serviços têm normalmente versado uma de três questões: (1) será que o microcrédito tem impacto em termos de desenvolvimento? (2) será que o microcrédito é sustentável como negócio independente, ou seja, sem dinheiro de doadores? (3) será que o microcrédito está a chegar aos mais pobres dos pobres? Em relação à primeira questão, para um serviço que tem impactos visíveis nas vidas de certas pessoas - é fácil mostrar o exemplo de fulana tal, que não tinha nada e hoje em dia tem uma magnífica banca de peixes, ganhou poder familiar e paga as suas dívidas a tempo horas – a discussão torna-se complicada, sendo que até hoje ainda ninguém conseguiu totalmente demonstrar que o microcrédito tem um impacto positivo no desenvolvimento económico de um país ou região. No que concerne a segunda questão, existem casos de organizações que se conseguem manter independentes de doações, mas para isso tendem a violar o terceiro ponto, ou seja, não ter como clientes principais os mais pobres dessa região.
Esta última discussão é na prática o que está implícito no tema de um artigo do New York Times, que apresenta o caso da instituição financeira Compartamos no México, que tem conseguido com técnicas de microcrédito ser muito rentável nos últimos anos com os seus mais de um milhão de clientes. A Compartamos, que recentemente fez um IPO, é sobretudo um exemplo de sucesso porque procura clientes com um nível médio em termos relativos de pobreza, para além de aproveitar um mercado mexicano não muito competitivo ao nível das taxas de juro. A Compartamos tem, no entanto, sido alvo de críticas pelas instituições de microcrédito mais tradicionais por uma ideia de que a organização estará a “aproveitar-se” da população pobre do país, apesar de inicialmente ter sido constituída como sem fins lucrativos, e que por isso estará a pôr em causa a imagem do modelo de microcrédito. Na prática, o argumento é que se está a apresentar ao Mundo como uma coisa que não é. Eu compreendo esta posição, sobretudo quando as organizações de microcrédito querem responder ao primeiro ponto mencionado acima – ser vistos como tendo impacto no desenvolvimento – mas sinceramente acredito que é possível (e desejável) que se complementem as duas ou mais versões destes serviços financeiros. Para todos os efeitos, a Compartamos presta serviços financeiros a pessoas que não têm colateral. Se há alguém que considere as taxas de juro da Compartamos muito altas, então que lhes faça competição.
Political Fish

Verborreia
A Constituição dos Estados Unidos da América tem 4.400 palavras.
A Constituição da República Portuguesa tem 32.261 palavras.
Pela sua contenção verbal, os EUA viram-se impossibilitados de consagrar constitucionalmente um importante imperativo político: o da promoção da ginástica. De nada serviu o artigo de James Madison nos Federalist Papers “Forget the independence of the judiciary: what the country needs is a tough stance on obesity”.
Artigo 79.º
(Cultura física e desporto)
1. Todos têm direito à cultura física e ao desporto.
2. Incumbe ao Estado, em colaboração com as escolas e as associações e colectividades desportivas, promover, estimular, orientar e apoiar a prática e a difusão da cultura física e do desporto, bem como prevenir a violência no desporto.








