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Al Gore anunciou na semana passada uma mega-campanha sobre mudanças climáticas, porque, nas suas palavras “We can solve the climate crisis, but it will require a major shift in public opinion and engagement”. A campanha tem um orçamento de 300 milhões de dólares. Se há decisão que mostra as forças e as fraquezas de Al Gore é esta. Muito por seu mérito, o aquecimento global está hoje no centro da agenda mediática. Mesmo tendo em conta cenários menos pessimistas, pode-se argumentar que este trabalho tinha que ser feito pois tanto as populações como o poder político precisavam de ser alertados para os possíveis cenários negativos. Até porque qualquer proposta séria terá elevados custos económicos e sociais. Claro que tem havido alarmismos e histeria da parte de vários sectores e, não sendo dos piores, Gore tem sabido, no entanto, explorar de forma eficaz o medo latente das pessoas.
Gore é um comunicador. Isso é muito importante. Mas é apenas um aspecto desta questão. Outros aspectos prendem-se com o debate político, científico e com a análise de políticas públicas. O lançamento desta campanha mostra que Gore chegou ao final de um caminho (percorrido com sucesso) e em vez de passar o testemunho, decide voltar à casa de partida.
Ressalvando as enormes diferenças, num certo sentido pode-se fazer um paralelo com o SIDA. No início foi necessário fazer mega-campanhas porque as pessoas tinham que ganhar consciência do problema, dos perigos, das formas de prevenção, etc. Também aqui a comunicação por vezes exagerou, mas em última análise foi eficaz no combate ao preconceito que a doença gera e, principalmente, na educação para a prevenção. Mas de forma gradual o debate e os progressos à volta da questão passaram a ser cada vez mais políticos, mais centrados na medicina, mais científicos.
Tal como no SIDA, em relação ao aquecimento global pode ser importante ir fazendo algumas campanhas. Mas talvez já seja o tempo de tornar este debate mais sereno, mais orientado para as políticas públicas, mais técnico. E, nessa nova fase, Gore não é manifestamente a pessoa certa para liderar.

David Sipress, New Yorker